Alvinegros verdes e amarelos

Dando sequencia a nossa série de colaborações, segue um post do Francisco de Andrade Figueira, irmão do nosso ilustre companheiro de blog Marcelo. Um texto longo porém inteligente que resgata todo nosso orgulho de ser alvinegro.

Nota: A Aliança Alvinegra não se responsabiliza pelo conteúdo dos posts de colaboradores. São posts que achamos interessantes, relacionados ao blog e que representam a voz de nossos usuários. Os textos postados são publicados na íntegra, sem qualquer edição. As opiniões postadas são de exclusiva responsabilidade do autor e nem sempre refletem a opinião da Aliança Alvinegra.

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Os sociólogos usam uma expressão curiosa para designar um dogma, algo que sustenta toda uma fé, o “mito fundador”. Este teria a função de basear todo um conhecimento, uma união, um sentimento ou uma aceitação. Este não teria função prática, e só a teria. Se tornaria inalcançavel por ser verdade, e verdade por ser inalcançavel. Pensando nessa expressão, reflito sobre os times. Muitos dos torcedores se legitimam por números. “Torço para o clube X porque é o que tem mais títulos” ou “Só serve o time Y porque é o que tem mais torcida”. Engano, eles torcem por outros motivos, ligações familiares, amigos que influenciaram, mas o mito fundador serve exatamente para justificar, dar certeza.

Então me pergunto, qual o mito fundador do Botafogo? Se são gloriosos os alvinegros, por quê os são? Muitos justificam na ponte que parecia existir até alguns anos entre General Severiano e a Granja Commary, outros em times da década de 60. Nunca quis isso. Para mim, Botafogo não é número, é sentimento. Quanto mais eu penso, mais eu vejo que, por não querer números, percebo maior ainda a grandeza da camisa alvinegra. Lembrei-me outro dia de uma curiosa história que uma vez vi num texto de João Moreira Salles, salvo engano, e duvido que tenha acontecido entre algum outro escrete. Na verdade, são duas histórias paralelas, que se encaixam tão perfeitamente que parecem obra do divino. O Brasil e o Botafogo.

Nascido em 1898, o Botafogo de Regatas olhava para o Atlântico. Passeava pela Baía de Guanabara e voltava. Este era o Brasil elitista, sempre se esquecendo do seu interior, sempre olhando para o outro lado do mar. E, vizinhos e coabitantes, existiam outras metades. O Brasil do interior nascia da necessidade um sonho, de uma luta contra a fauna e a flora desconhecidas, a necessidade de sobreviver. O Botafogo Football Club também nasceu de um sonho, da vontade de jogar bola, de meninos que criaram um club sério feito para brincadeiras. As duas histórias começaram parecidas e assim continuaram. Os meninos, sonhadores natos, criaram logo uma equipe vencedora.

1910

Em 1910, já tinham a alcunha de Gloriosos, e em 1911 compraram uma briga com gente muito maior. Sairam da Liga Metropolitana, viveram de amistosos. Na mesma época, o Brasil de dentro se revoltava. Pela primeira vez desde o início da política do Café com leite, a troca entre mineiros e paulistas era quebrada. Os paulistas e os cariocas apoiavam Rui Barbosa, candidato de elite, famoso intelectual. O Brasil de dentro apoiava o marechal Hermes da Fonseca. Pior para os cariocas, ganhou o militar que tinha como vice Venceslau Braz, nome da rua que passa pela nossa sede. Logo, porém, o Brasil de dentro também comprou brigas, veio a Revolta da Chibata, pois o militar não fazia valer seu compromisso com seus eleitores. Para piorar, Fonseca fez aliança com Pinheiro Machado, hoje rua que leva aos tricolores, para governar o país. Forçou interventores militares em alguns estados, endividou mais o país. Assim como o Botafogo de Football, o Brasil de dentro queria seriedade. Teve que esperar mais tempo.

Veio a década de 20, perdida para o Football e para o de dentro. Era a preparação para algo muito maior, a grande mudança. 1930. A revolução. Brasil conseguiu acabar com o elitismo de paulistas e mineiros, assumiu uma nova ordem o presidente salvador, Getulio Vargas. Enquanto isso, nos campos, o Botafogo de Football fazia história, o primeiro e único clube carioca a ser tetracampeão estadual. Tetra de verdade, seguido. Seguiu-se um longo periodo de vitorias. Chegou a nova estrela, Heleno de Freitas. Getulio uniu elites, operariado urbano e burguesia num acordo de mestre, em prol do desenvolvimento da nação. Também nessa época os Botafogos se uniram. Criado o Botafogo de Futebol e Regatas. País e clube com um só corpo, mas não com uma só voz. Assim como a que ocupava o Palácio do Catete, a estrela galanteadora brilhava demais. Com ela em campo, o alvinegro conquistou vitórias inesquecíveis, o jogo do senta no Flamengo, golaços no Fluminense, mas ela ofuscava a verdadeira estrela solitária. Não conseguiu titulo por culpa do craque. Getulio também se provou brilhar demais. Tornou-se ditador e salvador, fez as reformas estruturais, mas também não admitia outros brilhos. Flertou com o integralismo, como Heleno flertava com o Fluminense, mas abandonou a traição antes de se comprometer, como Heleno e os tricolores. A situação era insustentável, General Severiano teve que se desfazer de Heleno, mandado a Buenos Aires, mas não sem lagrimas no aeroporto. Também o Catete se desfez de Getulio, enviando-o para os pampas cuidar de seu gado.

1957 bota 6 x 2 flu e campeão

Nascido os novos Brasil e Botafogo, era hora da expansão. A nova República e o time de General Severiano seguiram caminhos de vitórias. Começou a germinar a geração vitoriosa de Nilton Santos, chegado em 1948, e a de JK, já governador de Minas. Daí, só ascenção. Conquistas com Didi, Garrincha, Manga, Amarildo, e tantos outros. Desenvolvimento puro. No Brasil, também se fazia a marcha para frente. Anos áureos os 60. Titulos mil, finais como a de 1957, 6 a 2 nos tricolores, a de 1963 sobre o Flamengo, Garrincha fazendo a festa. Este paralelo é fácil, não precisa de grandes detalhes. E mais uma vez, o destino se mostrou preciso na comparação. O golpe militar que institui a “ditabranda” acontece no mesmo ano da aposentadoria de Nilton Santos, o maior símbolo alvingro. Porém a época de glórias seguiu mesmo que sem a mesma exuberância, a segunda geração no Botafogo ainda brilhava. Gerson, Jairzinho, Rogério e Caju. A Taça Brasil de 1968, conquistada no ano seguinte, foi último titulo dos anos vencedores do alvinegro.

1963 outra

Logo depois, 1969, a “ditabranda” brasileira apertou os parafusos. O pau começou a comer, a cobra a fumar e cuica a roncar. Época triste, muitas perdas. 21 anos de derrotas para os dois lados. Botafogo se desfez de General Severiano, de Marinho Chagas. O Brasil, dos direitos individuais, da liberdade do papo de chopp.

Também nas tristezas existem paralelos. Depois de tantas perdas, a vitória também chegou junto. 1989, primeiro titulo depois da seca para o alvinegro, também aconteceu o ano da primeira eleição presidencial direta depois dos anos de medo. A festa nas ruas foi preta, branca, verde e amarela. O Botafogo seguiu seu caminho de titulos, 1990, bi-carioca, 1993, mercosul. O Brasil se mostrou amadurecido, o primeiro presidente sofre impeachment, prova da força das instituiçoes. Cortar da própria carne dói, assim como foi doída a perda do campeonato brasileiro de 1992. A inflação continuava solta, por isso o Botafogo teve que esperar comemorar o titulo nacional. Em 1994, eleito FHC, o presidente que acaba com o fantasma da desvalorização.

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Em 1995, o manequinho se veste de novo, campeão brasileiro com mérito. Seguiram os títulos de 1997, carioca e de 1998 Rio-São Paulo. Em 2002, o medo rondava terras brasilis. Nova crise surgiu ao horizonte, a desconfiança com a provável vitória de Lula. O metalurgico conseguiria comandar o Brasilzão? O Botafogo sentiu o medo e cai para a segunda divisão. Mas logo passou. O próximo ano já trouxe de volta a segurança, a ameaça de crise sumiu e o Botafogo voltou à primeira divisão. No entanto, urge reestruturar o clube e o país. Programas de redistribuição de renda criaram um país mais igual e nova administração tornou o clube mais sustentável. O Botafogo penou, mas conseguiu finalmente em 2006 o título carioca simbolo desse renascimento. Porém, um mal ainda assombra, a corrupção. O país sofre com mensalões, desvios de verbas, problemas sérios que parecem estar na raiz da alma brasileira. Os alvinegros também sofre com a corrupção. Fala-se da governabilidade e de chororô, fala-se que está perdido, aos homens bons aconselha-se fugir da política e do futebol.

Mas os alvinegros não ouvem. Insistem, sofrem com roubos escanrados, vão contra o mundo e apanham. Mas, como meninos do Largo dos Leões, são sonhadores natos.

Francisco de Andrade Figueira

quinta-feira, fevereiro 4th, 2010 Late Cachorrada!

1 Comentário to Alvinegros verdes e amarelos

  1. FANTÁSTICO !!!curti mto.nunca pensei na história do botafogo dessa forma.

    ser botafogo é mto maneiro na moral.

  2. rafael botafoguense - 5 de fevereiro de 2010

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