Era uma vez o passado.

Todo fim de semana no Engenho de Dentro é a mesma coisa. O ansioso sol, o primeiro a chegar, vai de casa em casa, porque lá elas ainda existem, convocando seus moradores a se juntarem a ele nas calçadas. As cadeiras são fincadas e, sob elas, os moradores se deliciam esperando sem pressa alguma a hora de dormir, para então dormirem, acordarem e repetirem o ritual.
Todo ritual tem seus símbolos. O fim de semana no subúrbio não é diferente. Para acompanhar o prazer do ócio, um bom papo com os vizinhos, uma cerveja gelada e um petisco. Está aí a única coisa que legitima levantar das cadeiras: a ida até o bar de alguém. Porque nos resquícios de antigamente guardados no subúrbio, os bares ainda são conhecidos pelos nomes dos seus donos.
Em dia de jogo, a rotina muda um pouco. As cadeiras continuam nas calçadas, mas as garagens são abertas como estacionamento e as janelas, abertas para a venda de camisas, cervejas e quitutes. E, por algumas horas, todos vivemos um tempo em que nem todos vivemos. Cada vez que chego às imediações do Niltão, renovo uma esperança de, assim que subir as voltas e voltas de rampa do estádio, ver Garrincha entrando em campo, ao lado de Nilton Santos.
Não bastasse o tempo voar e nos privar do passado, agora o choque de ordem vai chegar para nos privar da nostalgia. É a tentativa de estabelecer o controle até mesmo do tempo. A cerveja vai ser proibida, o salsichão vai ser proibido, a venda de camisas vai ser proibida. O presente vai se tornar uma prisão. A poesia do subúrbio periga acabar na fogueira.
Em protesto, colocarei minha cadeira na calçada hoje.







Lindo e verdadeiro.
Excelente! E o Brasil continua sendo o país do futuro…
Sensacional!!
Genial!!!
Muito melhor o nosso bom e velho programa de domingo – assistir ao Glorioso tomando uma gelada, no Engenhão ou no verdadeiro Maracanã – do que este choque de demagogia e hipocrisia…
Abs