Francisco Figueira
Uma imagem repetida
São os juízes que não deixam os atacantes fazerem gol?
Ou, a cada jogo contra o clube da beira da Lagoa, os alvinegros se preocupam mais em falar do juiz do que mirar a rede?
Melhor faltar que sobrar
Se o Campeonato Brasileiro não consegue reunir 20 times com um mínimo nível técnico, como o Carioca quer fazer um campeonato com 16 equipes? Esperei passarem alguns dias do empate, para separar a decepção do pensamento crítico, mas ainda não consegui entender: como ter 16 times no estadual?
As vezes me parece aqueles amistosos comemorativos com meia dúzia de globais e ex-jogadores onde cada um joga 15 minutos para aparecer e ganhar o cachê e os ex-BBBs e cantores sertanejos são os únicos que correm e não querem sair.
Contratações
Chega aos cartazes brasileiros em algumas semanas o filme O homem que mudou o jogo. A história de um dirigente de baseball que transformou o modo como se pensava o baseball: antes os times eram feitos com contratações de jogadores. Traziam grandes nomes, tidos como corajosos ou campeões e evitavam certos jogadores que eram vistos como mal sucedidos.
A partir de um pensamento lógico, o dirigente muda a filosofia de seu clube. Quem quer vitórias, não precisa de nomes. Precisa de pontos, ou corridas no baseball. A partir da análise de estatísticas sobre pontos, as contratações mudam de foco. Ao invés de atuar com o mercado, indo para onde havia grande interesse e altos preços, vai-se onde apontam os números e se conseguem melhores jogadores sem os altos custos.
Resumindo: os números dizem muito mais que a fama.
Claro que traduzir para o futebol não seria nada simples. O homem do bastão joga praticamente sozinho. Fora o Messi e o Maradona, nenhum jogador vai driblar o time inteiro. Ainda assim, creio que pode-se usar mais estatísticas nas contratações. Posse de bola ou toques certos, assistências, chutes a gol, desarmes. Muitas variáveis que ajudam a montar um time melhor.
A revolução vai chegar a qualquer momento. Ou já chegou. Nesta matéria se fala de porcentagem de passes certos no campo do adversário, de chance de gol adicionada, de controle da bola. Nada de dados simples como sugerido anteriormente. Grandes e difíceis estatísticas são as únicas que talvez criem grandes vitórias.
Tudo de novo?
O time não é o mesmo. Nem é novo. É um 4-5-1 com cara de meio de campo, com jogadas laterais e posse de bola. Menos ataque, mais controle sobre o adversário. E cabeçadas do Loco.
Trocamos um homem de briga por outro de articulação. Deu certo parcialmente, mas a substituição que mudou o jogo foi a entrada argentino bom de briga. No lugar da articulação. Não significa que um tem que ter a vaga do outro. Mas que os dois precisam estar disponíveis para o 4-5-1 funcionar: o bom de briga e o articulador.

Gostei, para um primeiro ensaio.
Rivais, rivais, contratações a parte
O ano começou aquecido para dois dos nossos rivais. Envolvidos em uma disputa insensata, o clube das laranjeiras conseguiu, a peso de planos de saúde, trazer o meio-campista que mais se envolve em confusões para transferências. Já assinou com dois times no mesmo ano, forçou saída da Alemanha, foi e voltou das arábias.
Mas o Botafogo? Para nós esta disputa vai ter alguns efeitos. Todos sabemos que é prática dos tricolores atravessar contratações alheias. Já fizeram conosco dúzias de vezes, e ainda vão fazer outras tantas. Adiantaria juntar-se no bloco de resistência liderado pelo clube da beira da lagoa? Conseguiríamos forçar boas práticas dos nossos vizinhos com plano de saúde?
Outro ponto importante está no Maracanã. Com a quebra da parceria entre a Gávea e as Laranjeiras, um deles vai continuar sem estádio. E assim podemos continuar com o Engenhão como palco de mais um time pelos anos que seguem 2014.
Será que podemos vencer este Fla-Flu?
PS.: Salvo engano, nós tentamos contratá-lo antes do Fluminense em 2007. Alguém confirma?
Ele concorda
A FIFA divulgou alguns votos, por jogadores famosos, na eleição da seleção de melhores do mundo. Ganso, com conhecimento de causa, votou em um goleiro desconhecido para a grande Federation Internationale, mas muito temido nos campos brasileiros:

No entanto, já há quem tente impugnar o voto do meio-cancha santista. Em eleição de homens, Jefferson não poderia ser votado.
E atenção com a ordem dos times: Botafogo, Barcelona, Milan, Chelsea, Real Madri, Barcelona, Barcelona, Santos, Santos, Barcelona e Real Madri. O intruso? Esse tal de Chelsea, time que só surgiu nos anos 2000, sem tradição. Um absurdo.
A venda
Faz parte da atividade: vender e comprar. Vendemos uns, compramos outros. E vai Cortez para um time que vai concorrer contra nós em três das quatro competições do ano.
- Cortez, le penseur (ou, o pensador)
Se multiplicamos um investimento em poucos meses, ótimo. Se ele não queria ficar, bom que vá. Mas perder as duas laterais no mesmo dia me faz pensar: O que será do time de 2012? E pior, o que faz um lateral e seu agente pensarem que o Morumbi é melhor que General Severiano? Será mesmo tão diferente? E será que não estamos vendendo nossas boas armas ao adversário? Ou será que estamos fazendo o certo: comprando na baixa e vendendo na alta?
O Estádio
Tem time que joga a libertadores e tem time que é dono do engenhoso.
Obrigado, Flamengo e Fluminense, por fazerem da sua torcida, a nossa renda.
Desde 1906
Amanhã o Botafogo enfrenta o Fluminense. O primeiro clássico carioca se repete, e faz bem reler um retrato deste jogo, feito em meados do nosso século mas perfeitamente cabível para a ultima rodada de amanhã.
Com a palavra, Mario Filho, num texto que já pode ter sido publicado aqui, mas ainda é perfeito:
Nao se tratava só dos bigodes dos jogadores do Fluminense. O Fluminense também tinha bigodes. Havia, entre os rapazes do Colegio Abilio e o Fluminense, uma distância de idade. Essa idade não se contava apenas pelos anos do Fluminense, dois, ou dos jogadores do Fluminense, alguns ainda rapazes. Era a concepção da vida, vamos dizer. Os rapazes do Fluminense tratavam logo de se adaptar, de usar bigodes imaginarios. Os rapazes do Botafogo queriam tambem ser homens, mas continuando rapazes. Daí se sentirem quase imberbes diante dos homens-feitos do Fluminense. A reação deles, forte , e renovada sempre pela rivalidade que foi a primeira do futebol carioca, tornou-os mais rapazes ainda, marcou-os eternamente rapazes.

Pouco importava que um Flavio Ramos, dezessete anos e primeiro Presidente do Botafogo, se sentisse rapaz demais para ser presidente do mesmo Botafogo. O homem-feito, procurado e encontrado, que foi ser Presidente do Botafogo, nao mudou o que já era imutável. Ser do Botafogo era ser rapaz. A gente ve^ velhos Botafoguenses, curvados pelos anos, e ate’ estranha um pouco. Serão ainda Botafoguenses? Mexam com o Botafogo e verão. Os velhos endireitam logo a espinha , estufam o peito, reacendem a chama do olhar e estão prontos. E nao é difícil mexer com o Botafogo. Nao ha’ clube de mais sensibilidade à flor da pele, com mais orgulho de Grande de Espanha que o Botafogo. Eis porque ele esta’sempre disposto a topar paradas, a se meter em encrencas, a arriscar ate’ a propria vida por uma coisinha.
Nada que o atinja e mesmo que nao o atinja, mas que ele julgue que foi para atingi-lo, é coisinha para ele. Ele devia ter nascido em outra epoca. E’ a unica flor retardatária de capa-e-espada que surgiu depois dos 1900. Trata-se mais de um gascao, de um D’Artagnan, sempre pronto a desembainhar a espada. Ouve muito mais a voz do coração do que a da cabeça. Qual era o clube capaz de largar uma Liga, sem outra Liga para ir, por causa da suspensão de um jogador? Aconteceu isso em 1911, justamente no ano em que o fluminense preferiu perder um time a deixar de ser o que era, isto e’, o fluminense. O Botafogo fez o contrario, para continuar mais Botafogo do que nunca.
Lutadores
Do livro de David Remnick, “O rei do mundo” (p. 23 e 24):
Lutadores, na opinião de Patterson, sempre sentem medo, todos eles, especialmente os que chegaram ao topo. “Não temos medo de apanhar, mas temos medo de perder. Uma derrota no ringue não se compara a nenhuma outra”, ele disse certa vez. ” Um campão que é nocauteado ou sofre uma derrota humilhante nunca mais se esquece. Ele apanha debaixo dos refletores, na frente de milhares de testemunhas que o insultam e cospem nele. E ele sabe que está sendo observado por outros milhares de pessoas, na televisão e no cinema, e sabe que o pessoal do imposto de renda logo virá visitá-lo – eles sempre querem pegar sua parte antes que ele perca tudo -, e o lutador não pode pôr a culpa da derrota no técnico nem no empresário, nem em ninguém. Se ganhar, porém, com certeza o técnico e o empresário vão levar a fama. O lutador derrotado perde mais do que o orgulho e a luta; perde parte de seu futuro, recua um passo na direção do cortiço de onde havia escapado”.
Mais do que o clube, esse trecho fala dos jogadores. E mostra como pode existir a decadência como a que vimos nas ultimas semanas. O livro continua, agora falando do técnico de Floyd Patterson:
Nas preleções a seus boxeadores, D’Amato dizia que as condições eram relativamente iguais e que o lutador capaz de entender seus medos e manipulá-los, usando-os em seu próprio benefício, sempre venceria: ele treinou jovens como Patterson e José Torres, o brilhante meio-pesado de Porto Rico, ensinando-os a considerar as lutas como se fossem psicodramas, confrontos entre duas vontades e não apenas entre músculos.
Tudo que peço: que Flavio Tenius seja D`Amato por um domingo.


