Desde 1906
Amanhã o Botafogo enfrenta o Fluminense. O primeiro clássico carioca se repete, e faz bem reler um retrato deste jogo, feito em meados do nosso século mas perfeitamente cabível para a ultima rodada de amanhã.
Com a palavra, Mario Filho, num texto que já pode ter sido publicado aqui, mas ainda é perfeito:
Nao se tratava só dos bigodes dos jogadores do Fluminense. O Fluminense também tinha bigodes. Havia, entre os rapazes do Colegio Abilio e o Fluminense, uma distância de idade. Essa idade não se contava apenas pelos anos do Fluminense, dois, ou dos jogadores do Fluminense, alguns ainda rapazes. Era a concepção da vida, vamos dizer. Os rapazes do Fluminense tratavam logo de se adaptar, de usar bigodes imaginarios. Os rapazes do Botafogo queriam tambem ser homens, mas continuando rapazes. Daí se sentirem quase imberbes diante dos homens-feitos do Fluminense. A reação deles, forte , e renovada sempre pela rivalidade que foi a primeira do futebol carioca, tornou-os mais rapazes ainda, marcou-os eternamente rapazes.

Pouco importava que um Flavio Ramos, dezessete anos e primeiro Presidente do Botafogo, se sentisse rapaz demais para ser presidente do mesmo Botafogo. O homem-feito, procurado e encontrado, que foi ser Presidente do Botafogo, nao mudou o que já era imutável. Ser do Botafogo era ser rapaz. A gente ve^ velhos Botafoguenses, curvados pelos anos, e ate’ estranha um pouco. Serão ainda Botafoguenses? Mexam com o Botafogo e verão. Os velhos endireitam logo a espinha , estufam o peito, reacendem a chama do olhar e estão prontos. E nao é difícil mexer com o Botafogo. Nao ha’ clube de mais sensibilidade à flor da pele, com mais orgulho de Grande de Espanha que o Botafogo. Eis porque ele esta’sempre disposto a topar paradas, a se meter em encrencas, a arriscar ate’ a propria vida por uma coisinha.
Nada que o atinja e mesmo que nao o atinja, mas que ele julgue que foi para atingi-lo, é coisinha para ele. Ele devia ter nascido em outra epoca. E’ a unica flor retardatária de capa-e-espada que surgiu depois dos 1900. Trata-se mais de um gascao, de um D’Artagnan, sempre pronto a desembainhar a espada. Ouve muito mais a voz do coração do que a da cabeça. Qual era o clube capaz de largar uma Liga, sem outra Liga para ir, por causa da suspensão de um jogador? Aconteceu isso em 1911, justamente no ano em que o fluminense preferiu perder um time a deixar de ser o que era, isto e’, o fluminense. O Botafogo fez o contrario, para continuar mais Botafogo do que nunca.
Oswaldo na beca.
E em breve, ao que tudo indica, Oswaldo de Oliveira estará vestindo o verdadeiro traje de gala. A camisa de técnico com o escudo mais bonito do mundo.
Contratação certeira. Autuori, se viesse, viria apenas em março. Tarde demais, até porque 2012 já começou. Então, foi o melhor nome. Oswaldo tem bom relacionamento com os jogadores e fala mansa, mas não é de perder o comando dos seus times. Taticamente, é um pouco mais defensivo do que seu antecessor, mas não chega a ser um retranqueiro confesso.
Mas o pré-requisito mais importante de todos, ele tem: é um técnico campeão. Brasileiro, mundial, estadual, japonês, de tudo que é tipo. Chega de técnico que é quase comandando um time que é quase.
Então, seja bem-vindo, Oswaldo. E nunca se esqueça do que dizem os primeros versos do nosso hino.
Botafogo, Botafogo, campeão desde 1907.
Lutadores
Do livro de David Remnick, “O rei do mundo” (p. 23 e 24):
Lutadores, na opinião de Patterson, sempre sentem medo, todos eles, especialmente os que chegaram ao topo. “Não temos medo de apanhar, mas temos medo de perder. Uma derrota no ringue não se compara a nenhuma outra”, ele disse certa vez. ” Um campão que é nocauteado ou sofre uma derrota humilhante nunca mais se esquece. Ele apanha debaixo dos refletores, na frente de milhares de testemunhas que o insultam e cospem nele. E ele sabe que está sendo observado por outros milhares de pessoas, na televisão e no cinema, e sabe que o pessoal do imposto de renda logo virá visitá-lo – eles sempre querem pegar sua parte antes que ele perca tudo -, e o lutador não pode pôr a culpa da derrota no técnico nem no empresário, nem em ninguém. Se ganhar, porém, com certeza o técnico e o empresário vão levar a fama. O lutador derrotado perde mais do que o orgulho e a luta; perde parte de seu futuro, recua um passo na direção do cortiço de onde havia escapado”.
Mais do que o clube, esse trecho fala dos jogadores. E mostra como pode existir a decadência como a que vimos nas ultimas semanas. O livro continua, agora falando do técnico de Floyd Patterson:
Nas preleções a seus boxeadores, D’Amato dizia que as condições eram relativamente iguais e que o lutador capaz de entender seus medos e manipulá-los, usando-os em seu próprio benefício, sempre venceria: ele treinou jovens como Patterson e José Torres, o brilhante meio-pesado de Porto Rico, ensinando-os a considerar as lutas como se fossem psicodramas, confrontos entre duas vontades e não apenas entre músculos.
Tudo que peço: que Flavio Tenius seja D`Amato por um domingo.
Pelo menos…
Não lutamos contra o rebaixamento.
Já estamos classificados para a Copa do Brasil e para a Sulamericana.
Jefferson tem tomado muitos gols e, quem sabe, o assédio dos outros clubes não diminui.
Vamos estar livres para acompanhar todas as emoções da última rodada, sem nos preocupar com o jogo do Botafogo.
Não vamos enfrentar o time das meninas com chances de título.
Vamos lucrar com a renda do jogo do bacalhau contra a mulambada no Niltão.
Não vamos ser obrigados a ver Alessandro, Felipe Menezes, Herrera e cia jogando uma libertadores com a Gloriosa camisa alvinegra.
- – - –
Esse post é uma tentativa mau-sucedida de humor negro.
Não existe nenhum ponto positivo nesse fim de ano vergonhoso.
Um caminho
Qual é o caminho de Santiago? Todos. Todos os caminhos podem te levar à catedral da Compostela, tudo que você precisa é saber chegar lá. E os que já passaram deixaram dicas pelo caminho, sempre há conchas, que são as setas. Assim que o caminhante aprende a ler os sinais, tudo pode dar certo.

(Na imagem uma das famosas conchas indicando o caminho da direita).
Os caminhantes precisam de fé por todo o trecho. Não basta andar rápido no início, porque se cansa no meio, não basta fazer um caminho consistente, porque se pode entediar, e tampouco é suficiente ter o melhor equipamento, este só te garante um peso mais qualificado.
Há quem goste de metas pelo caminho: chegar no ponto tal em tantos dias, ou estar em Santiago no dia especial. Não preciso me alongar aqui. Claro que por mais metas que se pretenda, imprevistos acontecem. E quando acontecerem, só uma coisa pode salvar: a fé. O caminho termina numa bela catedral. Mas a fé não é a cristã, pode ser de qualquer forma, religiosa, moral ou espiritual. Talvez até ascética. Basta ser fiel.
Então duas coisas não podem faltar: seguir as setas e ter fé. As setas podem te dizer onde ir, mas quando seus pés ou sua cabeça te traem, nada pode te levar até Santiago, nem mesmo o melhor dos técnicos, ou o mais qualificado quarteto no meio campo.
Eleições
Maurício Assumpção foi reeleito presidente do Glorioso ontem com pouco mais de 70% dos votos. Seu bom primeiro mandato levou os sócios a lhe garantirem até 2015. Ele reorganizou o clube e deu uma cara mais empresarial à administração (palavras internas), aumentando e valorizando nosso patrimônio e abrindo frente para despontarmos noutros esportes. Ao contrário do que muito se tem lido pela internet, o futebol foi bem nesse triênio. Resultados expressivos demoram a aparecer e passam, sem qualquer dúvida, pela valorização das divisões de base.
Seu novo vice será o caro Paulo Mendes, parente de Horácio Feldman comentarista ativo aqui do blog. Boa sorte a ambos!
A final de domingo.
Que Botafogo contra o patético-mg o quê. O grande jogo de domingo é qatar x omã.
E somos omã desde pequenininho, já que se essa nossa incrível seleção conseguir uma vitória ou empate, o qatar ficará sem chances de ir às olimpíadas.
Aí, meus amigos…
Latida: A Puma vem aí. Achei sensacional, muito melhor do que aquela outra empresa, que já forneceu uniformes pra mulambada. Afinal, quanto mais semelhanças com a seleção uruguaia, melhor.
Uma foto e umas frases

Pensamento do dia: Podemos até não ir para a Libertadores mais um ano, Buenos Aires sempre vai estar lá. Só não aceito um time que não queira jogar futebol. Desde uma jogada para o gol, a um tento sofrido, ou um gol de placa. Quero ver o Botafogo em campo, onde estiver.
Desacostume.
E em 2011, parecemos ter um déjà vu de 2007 e 2010. Mais uma vez, a carruagem vira abóbora, e transforma o conto de fadas em dura realidade. Esperança de título vira esperança de vaga na libertadores. E esperança de vaga na libertadores vira desesperança nua e crua. Esse ano, ainda não chegamos matematicamente a esse último estágio, mas é difícil crer numa guinada pelo que aconteceu nas últimas seis ou sete rodadas.
Diante dessa repetição de insucessos, fiquei me perguntando o porquê. Carma? Maldição? Mau-olhado? Ou serão infelizes coincidências do futebol, como os salários atrasados de 2007, as contusões em 2010 e as invenções de um técnico em 2011. Para mim, nada disso explica. Vejo por um outro viés. E se ele é mais duro, é também otimista. Para mim, os três fracassos, junto com outros, estão debaixos de um mesmo guarda-chuva. O Botafogo é um gigante, mas se desacostumou a ser grande. E esse Botafogo inclui time e torcida.
Ao se desacostumar a ser grande, o Botafogo deixou de ser time de chegada. E quando chega o dia D, bem na hora H, a coisa desanda. É aí que o relógio aponta as badaladas da meia-noite. Dentro de campo, os passes não encaixam, as bolas não tocam a rede e as barreiras de contenção já são mais intransponíveis. Nas arquibancadas, os gritos viram vaias, as faixas ficam de cabeça pra baixo e a multidão dá espaço ao vazio.
Que fique bem claro que esse desacostume não vem de agora. Ele é fruto de um período de 21 anos sem títulos, de uma década de 90 com altos e baixos e de um início de século ruim. A isso, soma-se uma sucessão de diretorias amadoras. Que fique bem claro também que esse desacostume não é uma daquelas coisas que só acontecem com o Botafogo. O inter e o santos, por exemplo, que hoje brigam por todos os títulos, tiveram uma década de 90 pior do que a nossa e só tornaram-se potências em meados da década passada.
Para reverter esse quadro, é fundamental ter criatividade e culhão. Criatividade na gestão para contratar, atrair receitas, revelar jogadores – porque a base é sine qua non para essa mudança de patamar. Culhão para decidir e, se por acaso não for na primeira vez, será na segunda, na terceira ou na décima. Mas o resultado virá. É a tal história da água mole em pedra dura. Vide aqui, no nosso campeonato regional, que tivemos que bater 3 vezes na pedra dura para que ela furasse na quarta. A grandeza não se faz em chegar uma vez e ganhar. Se faz em chegar sempre (ou quase sempre) e ganhar em algumas delas.
Estamos no caminho certo para chegar lá. Faltam ajustar algumas coisas, é claro. Não adianta mirar o último degrau, o título, e esquecer dos outros degraus que nos levam até lá, como a vaga no G4, a sulamericana e a copa do brasil. É passo-a-passo. Andamos alguns. Prova disso é que já somos uma equipe com um retrospecto louvável dentro de casa e com uma boa média de público. Porque essa relação é bilateral: quem está fora de campo puxa quem está dentro, e vice-versa.
Um amigo costuma dizer: life favours the bold. Traduzindo, seria algo como “a vida favorece os grandes, os fortes, os gigantes”. E somos absolutamente gigantes. É só você abrir o seu armário, olhar para aquela camisa alvinegra com o escudo mais bonito do mundo e ver o que ela faz com você.
Ah, e esse ano ainda não acabou. Quem sabe não subimos mais um degrau rumo ao lugar onde sempre estivemos?






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